Nos bastidores dos originais aprovados
Postado em 19.11.2015 às 16:35.

O professor Thiago Mio Salla, formado em Jornalismo e também em Letras pela Universidade de São Paulo, pesquisador de Graciliano Ramos e grande nome no ramo editorial brasileiro, fala um pouco sobre o panorama editorial no Brasil atualmente, na matéria especial para a décima edição. Confira!

Quais aspectos são essenciais para que um autor possa ter êxito na publicação de um livro?

A seleção de originais tem dois vetores fundamentais, pensando do ponto de vista da empresa editorial enquanto uma empresa propriamente dita. Existe de um lado o mérito literário, artístico, e também o quanto essa obra publicada pode de algum modo alavancar as vendas, isto é, se essa obra tem uma vendagem mais imediata e concreta que vai atender a uma demanda de minha editora agora, ou se ela me ajuda a formar um fundo de catálogo. Você não teria um retorno imediato; mas a longo prazo, essa é uma obra que vende e vai se reeditando.

Dentro dessa perspectiva, dos dois vetores que você comentou, tanto do mercado quanto da adequação das obras de mérito artístico, você acha que as editoras conseguem conciliar, ou têm a intenção de conciliar, os novos autores e os grandes, os que vendem muito e os que vendem pouco? Você acha que existe alguma tendência ou alguma perspectiva nesse sentido pra quem está começando a escrever?

Bom, hoje em dia temos um fenômeno que ainda não foi estudado, trabalhos que eu desconheço; ainda mais no Brasil, pois temos uma pobreza de dados sobre o mercado editorial notória. Sendo assim, para embasar um projeto de construção de uma editora, ou mesmo de marketing, é bem complicado. De dados concretos, existem minimamente agora alguns números, mas apenas de vendagem. Como que você vai mensurar o sucesso que o livro pode vir a fazer? As ferramentas de autopublicação são o principal recurso e possibilidade dos autores. Analisando o número de downloads, no caso do e-book, e a repercussão que o autor tem, algumas editoras passam a prestar atenção. Falando em termos de seleção de originais, quando você submete um texto para uma editora e lá está o seu nome e ninguém te conhece, o que vai contar é o texto. É quanto o seu texto, pensando na articulação do discurso que você produz e a paixão que consegue mover naquele auditório, naquele leitor (que na verdade vai ser o avaliador), é passível de ser publicado ou não, seja de modo integral, seja com alterações. Mesmo assim, a gente sabe que no mercado editorial um nome é um fator muito importante para apresentar e pensar numa seleção de texto.

O que pode ajudar um autor a ter consciência sobre essa dinâmica do mercado editorial, no sentido de perceber como o texto dele pode ter êxito na hora de ser publicado ou de chegar à editora?

Essa é uma questão importante. Eu recomendo a leitura de um livro chamado “Versão do Autor”, uma obra que fala do ponto de vista de diversos autores, de como eles olham para o trabalho do editor. A dinâmica da seleção de originais é bem desconhecida do público, o que dá às editoras um certo poder. No caso da prosa, é necessário que ela tenha um primeiro impacto muito grande, pois a chance de você ter um livro publicado que vai chamar a atenção depois de muitas páginas só é grande se você for um autor muito bem estabelecido. Outra coisa que precisa ser feita, por exemplo, é fazer acompanhar um original de uma apresentação, uma espécie de sinopse da trama, muitas vezes até uma carta de apresentação do autor ou uma carta de indicação.

Nos últimos anos as novas tecnologias impactaram o modo como o livro é produzido, com essa migração de um suporte para o outro, impactaram a própria forma como a publicidade dos livros é feita, o marketing digital, monitoramento de redes etc. Em termos de seleção de original raramente chega a nós o texto de forma impressa, geralmente ele vem por e-mail; algo aparentemente básico, mas que de alguma maneira facilita a circulação desse original.

Como você entende a função do agente literário e qual é o peso que isso tem no sentido de facilitar ou de podar certas publicações? Como o autor vê o agente literário e como a editora vê o agente literário?

Pensando na dinâmica do livro, o papel do agente literário já está mais sedimentado no exterior que aqui. No Brasil eu vejo que isso vai ganhando mais força com o passar do tempo. Mas o agente literário é uma figura que deve ser levada em conta hoje em dia no próprio processo do livro, na medida em que dificilmente os trabalhos que a editora recebe são publicados sem uma indicação.

O agente literário nada mais é que um mediador entre o autor e a editora, é aquele que profissionalmente recebe um pagamento para que isso seja feito, para que os autores e as obras cheguem até as editoras. Além de possuir bons contatos, o ideal seria que ele também fosse um bom leitor e um bom avaliador daquele material que  tem em mãos. Tanto porque assim ele poderá saber, conhecendo as casas editoriais com as quais tem contato, em qual delas esse original melhor se encaixa.

Considerando um jovem autor aspirante, esse agente deve ser alguém que entenda a dinâmica do mercado. Ele deve dar uma diretriz para o trabalho, saber quais são as tendências. Já os grandes autores geralmente possuem um agente que os acompanham periodicamente. Existem até empresas que gerenciam toda a obra e cuidam da questão dos direitos de grandes autores falecidos.

Nas pequenas editoras, a Com Arte, por exemplo, quais seriam os principais critérios de seleção de original?

A primeira parte do formulário da Com Arte abrange cinco critérios. O primeiro, a identificação do gênero literário, consiste em um enquadramento da arte do texto. Pode ser um gênero macro, como um romance, um conto, uma novela, um ensaio.

O segundo critério é a faixa de público, é o horizonte de leitura daquele texto. Para conseguir identificar isso eu preciso avaliar o léxico, o conteúdo, ou seja, eu preciso projetar uma imagem de qual é o leitor dessa obra.  Já o tema, terceiro item do formulário, é aquilo que pode ser resumido em uma única frase na qual eu consiga dizer qual é o cerne daquela obra.

O assunto, quarto parâmetro, é a própria sinopse e os elementos centrais que compõem aquela trama. Por essa razão, é diferente do tema, que corresponde à interpretação do assunto em dimensão mais abstrata e geral.

Por fim, existe a  adequação à linha original. Para fazer um parecer sobre um original eu preciso realmente conhecer o catálogo da minha editora e saber avaliar de que modo ele se enquadra.

Para avaliar se um texto tem potencial de ser publicado e quais são seus pontos fortes, existem alguns elementos fundamentais. São eles: estilo, que está relacionado com o próprio “eu” que se manifesta por meio das figuras, do escopo;  técnica, que demonstra de que forma o autor consegue manusear a própria língua; fluência de leitura, como o autor consegue impactar seu público e captá-lo como leitores potenciais; variante linguística, construção de verossimilhança pelo uso de estereótipos relacionados à variante empregada por cada personagem e originalidade, como a obra se correlaciona com o mercado editorial.

Todos esses critérios dão subsídio para que uma obra seja avaliada. Não é fácil fazer isso porque que repertório eu tenho pra falar do estilo de um autor? Estilo baixo, estilo elevado, próximo, distante? Para conseguir categorizar e conceituar isso é importante ter repertório. Não apenas conhecer muitas obras, mas principalmente possuir repertório linguístico, da história do livro ou mesmo da crítica literária, que garantem minimamente o instrumental teórico para conseguir entender e avaliar os textos.

 

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