Originais Reprovados
Entrevista Laura Bacellar
Postado em 10.11.2009 às 6:00.

Editora com vasta experiência, Laura Bacellar é autora de Escreva seu livro e do site www.escrevaseulivro.com.br, nos quais orienta as publicações para escritores inexperientes. Aqui, ela fala à OR sobre os novos autores,
dando conselhos e sugestões.

A senhora tem experiência em diversas áreas do mercado editorial, inclusive selecionando originais. Quais as maiores dificuldades em julgar um original? Quanto desse julgamento é determinado pela editora, e qual a liberdade do editor?

     O julgamento final a respeito da publicação ou não é sempre da editora, já que é a empresa que assume os custos de publicar o livro. Em geral, quem julga em nome da editora é justamente o editor, mas acontece de originais serem lidos por pareceristas externos à casa editorial, que são contratados para tecer considerações e dar sua opinião com toda liberdade. Uma opinião veemente positiva (ou mesmo negativa) não significa no entanto que a editora vá acatar a sugestão do parecerista. Como disse, dado que a responsabilidade pelo empreendimento é da editora, alguém ali em algum momento resolve se a obra vale o risco ou não, mesmo com as considerações do parecerista.

     A dificuldade de se fazer esse trabalho, dentro ou fora da editora, é pesar três variáveis diferentes e tentar medir se combinam: a obra em si, se é boa ou não, clara, interessante, bem escrita; se funciona para o público a que se destina; e se combina com a editora para que se está trabalhando.

Uma vez que o autor tem um original finalizado, por onde ele deve começar o trajeto até a publicação?

     Ele precisa procurar editoras que publiquem obras semelhantes à sua e escritas por autores brasileiros desconhecidos. Essa busca precisa ser focada exatamente nas editoras do assunto da obra e inclusive na tendência, facção ou movimento dentro do segmento a que a obra pertença. Isso vale para tudo. Se você escreveu um romance policial, só pode procurar editoras de romances policiais. E se você escreveu algo que não sabe classificar, então precisar dedicar tempo a ler livros de várias áreas e editoras até encontrar a sintonia exata da sua obra. Ou contratar um parecerista — e se dispor a ouvir as indicações desse profissional!

     Muitos autores não têm noção do funcionamento das editoras. O que é interessante saber sobre o processo de seleção de originais antes de submeter uma obra?

     É interessante ler meu livro ou meu site, porque explico justamente como editoras funcionam e como se relacionar com elas. O básico é o seguinte: editoras de verdade, que não cobram nada dos autores que publicam (ao contrário, pagam direitos autorais quando o livro vende), não devem explicações a ninguém. Elas são soberanas em suas decisões, porque publicar exige investimento e acarreta riscos. Ninguém pode obrigar um empresário a correr um risco a que ele não esteja disposto. O autor que quiser se dar bem precisa compreender essa dinâmica e jamais insistir ou exigir, mas tentar colaborar ao máximo produzindo obras com diferencial, originalidade, linguagem legível e que atendam a um público.

Como encontrar a editora que mais se adequa ao seu original? O autor deve aguardar a resposta de uma antes de enviar para outras?

     Encontrar uma editora é, como eu disse acima, um exercício de conhecer os tipos de obras publicadas pelo mercado. Em geral se faz isso em livrarias, mas pela internet também é possível, o que não pode é ter preguiça. Eu me espanto com a quantidade de gente que me pede “listas de editoras” infantis ou de poesia ou de romances ou seja o que for. Isso é o mesmo que pedir a alguém para dar listas de concessionárias de carros. Que carros? 4×4? Compactos? De luxo? Importados? Flex?

     Dá para perceber o absurdo? Livros são produtos culturais, nos quais o conteúdo é importantíssimo. É preciso então procurar a editora de livros infantis progressistas (ou cristãos ou ecológicos ou de cultura germânica ou outra particularidade forte sua obra tenha) e enviar só para aquela, não a editora de livros infantis espíritas.

     Não é preciso esperar a resposta de uma para enviar a outra, isso só cria ansiedade. Melhor enviar para todas as possíveis e esperar que alguma responda.

O que o autor deve ter em mente quando envia um original para ser julgado? Existem ideias erradas sobre o processo e que são comuns entre autores novos?

     Há autores que acreditam que receberão explicações ou orientações quando suas obras forem recusadas. Não, editoras só aceitam ou rejeitam, não têm tempo para explicar porque em geral são poucas pessoas para muito trabalho. Há autores que acreditam que precisam ir pessoalmente às editoras entregar seus originais. Não, tanto faz a cara do autor, essa aliás é uma das poucas atividades humanas em que a aparência não interfere no resultado. Um texto é julgado pela escrita, não pelos belos olhos do autor. Há autores que acham que precisam convencer o editor a publicar sua obra. Não, como disse acima, o editor julga pensando no público e na sua opinião pessoal. A tentativa do autor em convencê-lo conta pouco contra a sua percepção do que o público deseja.

A partir de sua experiência, quais as chances dos autores novos no mercado editorial brasileiro? A sra tem algum conselho final para quem está começando?

     Tenho muitos conselhos, olhe lá no meu site. O problema é que é uma gama grande de coisas importantes e não tenho espaço para dizer tudo. Vou mencionar alguns itens e peço que os leitores procurem se aprofundar
em cada um.

1) Há muita falta de obras brasileiras em nosso mercado, tanto de ficção quanto de não-ficção. Só que os autores precisam se profissionalizar um pouco mais para entregar originais publicáveis às editoras, não massarocas que precisem ser refeitas. Muitas vezes as editoras traduzem em lugar de publicar um autor nacional simplesmente porque o estrangeiro já foi editado, já está organizado, limpo, sem repetições, com
os fatos checados, com a trama coesa. Quem entrega uma obra arrumada a uma editora tem boa chance de ser publicado.

2) Pense em quem vai ler. Escreva para um tipo de público que existe em boa quantidade e use uma linguagem adequada para aquele tipo de pessoa. Não tente falar com professores universitários e alunos do ensino médio ao mesmo tempo, por exemplo.

3) Tenha um diferencial. O que é isso? Uma característica forte e marcante que distingua sua obra das demais. Ser genérico é bom para medicamento, mas péssimo para livro…

4) Não copie, crie! Ninguém quer ler cópias de Harry Potter ou Clarice Lispector, os originais são perfeitamente acessíveis aos leitores nas livrarias. Faça algo diferente, seja que ramo for de literatura que você pratique.

Para saber mais, leia Escreva seu livro, de Laura Bacellar. Editora Mercuryo, 2001.




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